quarta-feira, abril 30, 2014

Como Líderes Arrancam Dinheiro dos Fiéis

Ou dá ou desce...


Muitos tem a piedade como fonte de lucros I Tm 6,5. A porta é estreita. Esses já receberam sua recompensa.

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sábado, abril 19, 2014

Os EUA e a sua concepção de Democracia

História: 35 países onde Washington derrubou governos legítimos, aliou-se a ditadores e cometeu genocídios, em nome de seus interesses geopolíticos.
Nicolas J.S. Davies, no Alternet

Um velho clichê político repetiu-se, nas últimas semanas, na Ucrânia e na Venezuela – ainda que com roupagem nova. Em Kiev, um presidente corrupto, porém legítimo, foi deposto após meses de manifestações, comandadas por grupos neonazistas. Em Caracas, Leopoldo López, político de extrema-direita e um dos líderes do golpe de Estado de 2002, apoia-se em dificuldades do governo para pedir sua derrubada antidemocrática. Nos dois casos, os Estados Unidos têm interesse geopolítico claro na queda dos governantes e agiram (agem, na Venezuela) para provocá-la.

O pretexto de Washington é uma concepção particular de “democracia”. Na Ucrânia, o chefe de governo, Viktor Yanukovitch, teria sido afastado por se aproximar da Rússia – adversária dos EUA e, portanto, “antidemocrática” por definição. Na Venezuela, tanto o ex-presidente Hugo Chávez quanto seu sucessor, Nicolas Maduro, promovem políticas de unidade latinoamericana que incomodam Washington. Por isso, seriam, naturalmente, “autoritários”. A mídia aliada ideologicamente à Casa Branca repete tais argumentos de maneira tão maciça (e acrítica) quanto assegurava haver, no Iraque, “armas de destruição em massa”.

Mas qual a autoridade do governo norte-americano para falar em nome da “democracia”? Nos próprios Estados Unidos, parece haver enormes dúvidas. Colaborador de publicações como “Huffington Post”, “Salon”, “ZNet” e “Alternet”, o escritor e jornalista Nicolas J.S. Davies acaba de produzir, para esta publicação, um texto de grande importância e atualidade. Após vasta pesquisa histórica, Davies relacionou uma lista (certamente incompleta) de países em que Washington interveio derrubando governos legítimos por meio de golpes de Estado, apoiando ditaduras ou participando de massacres e genocídios.

São 35 países, contando apenas as intervenções entre pós-II Guerra Mundial e hoje. Os verbetes são densos, porém breves – ou o texto seria interminável. Mas Davies teve o cuidado de pesquisar e indicar por meio de links, em cada caso, textos que permitem compreender, em detalhes, o contexto e os fatos concretos. O autor adverte: “em nome de sua incansável busca pelo domínio global, Washington criou um longo e contínuo histórico de trabalhar lado a lado com fascistas, ditadores, chefões das drogas e países que patrocinam terrorismo. (…) Os crimes cometidos vão de assassinato a tortura, de golpes a genocídios. A trilha de sangue desse caos e carnificina vai até os degraus da Casa Branca e do Congresso norte-americano”. A seguir o resultado, ordenado alfabeticamente, da pesquisa de Davies. (A.M)

1. Afeganistão

Durante a década de 1980, os EUA trabalharam com o Paquistão e a Arábia Saudita para derrubar o governo socialista do Afeganistão. Eles financiaram, treinaram e armaram forças lideradas por líderes locais conservadores, cujos poderes foram ameaçados pelas reformas do país nas áreas de educação, direitos das mulheres e reforma agrária. Após Mikhail Gorbachev retirar as tropas soviéticas, em 1989, esses senhores da guerra apoiados pelos EUA, despedaçaram o país e aumentaram a produção de ópio a um nível sem precedentes de 2 mil para quase 3.500 toneladas por ano. O governo Talibã cortou tal produção em 95% durante 1999 e 2001, mas a invasão norte-americana colocou os senhores da guerra e chefões das drogas de volta ao poder. O Afeganistão ocupa atualmente o 3º lugar dos mais países mais corruptos do mundo (entre 177) e o 175° em desenvolvimento humano (entre 186). Além disso, desde 2004 sua produção de ópio aumentou para 5.400 toneladas por ano. O irmão do presidente afegão, Ahmed Wali Kharzai era um notório chefão das drogas financiado pela CIA . Após uma grande ofensiva do exército norte-americano na província de Kandahar, em 2011, o coronel Abdul Razziq foi nomeado chefe de polícia local, impulsionando o contrabando de heroína que já lhe rendeu 60 milhões de dólares ao ano, em um dos países mais pobres do planeta.

2. Albânia

Entre 1949 e 1953, os EUA e o Reino Unido aliaram-se para derrubar o governo da Albânia, o menor e mais vulnerável país comunista no Leste Europeu. Exilados foram recrutados e treinados para retornar à Albânia e, estimular dissidentes a planejar um levante armado. Muitos dos exilados envolvidos no plano foram antigos colaboradores da Itália fascista e da Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial. A lista incluía um antigo Ministro do Interior, Xhafer Deva, que supervisionou as deportações de “judeus, comunistas, partisans e pessoas suspeitas” (como descrito em um documento nazista) para o campo de concentração de Auschwitz. Documentos norte-americanos secretos que se tornaram públicos revelaram desde então que Deva foi um dos 743 fascistas criminosos de guerra que os EUA recrutaram após a guerra.

3. Argentina

Documentos secretos que foram liberados ao público em 2003, detalham conversações de outubro de 1976, entre o então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, e sua contraparte argentina, o ministro das Relações Exteriores Almirante Guzzetti, pouco tempo depois de a junta militar tomar o poder na Argentina. Kissinger aprovou, explicitamente, a “guerra suja” dos militares sul-americanos, que matou aproximadamente 30 mil pessoas – jovens, em sua maioria – e roubou 400 órfãos de suas famílias. Kissinger disse a Guzzetti: “Veja bem, nossa posição é que você tenha sucesso…quanto mais rápido você tiver sucesso, melhor”. O embaixador dos EUA em Buenos Aires relatou que Guzzetti “saiu da conversa em estado de júbilo, convencido que não haveria nenhum problema por parte do governo norte-americano sobre esse assunto”.

4. Brasil

Em 1964, o general Castelo Branco liderou um golpe que iniciou 20 anos de uma brutal ditadura militar. O adido militar norte-americano, Vernon Walters – mais tarde Diretor Interino da CIA e embaixador na ONU – conhecia bem Castelo Branco desde a Segunda Guerra Mundial, na Itália. Por ter sido um agente da CIA, os relatórios de Walters sobre o Brasil nunca vieram a público, mas a CIA providenciou todo o apoio necessário para garantir o sucesso do golpe de Estado, assim como na Ucrânia e Venezuela, recentemente. Uma força anfíbia dos Marines norte-americanos estava à postos para desembarcar no país, mas não foi necessário. Assim como outras vítimas dos golpes apoiados pelos EUA na América Latina, o presidente eleito João Goulart era um rico latifundiário, não um comunista, mas seus esforços para permanecer neutro durante a Guerra Fria eram inaceitáveis para Washington.

5. Camboja

Quando o presidente Nixon ordenou o bombardeio secreto e ilegal no Camboja, em 1969, os pilotos norte-americanos foram obrigados a falsificar seus manifestos de voo para encobrir seus crimes. O bombardeio matou pelos menos 500 mil de cambojanos, despejando mais bombas no pequeno país asiático do que a Alemanha e o Japão combinados, durante a Segunda Guerra. Quando o grupo Khmer Vermelho ganhou força no país, em 1973, a CIA relatou que “sua propaganda é mais efetiva entre pessoas que sofreram com os bombardeios dos B-52 dos EUA”. Depois de o Khmer Vermelho matar mais de dois milhões de seu próprio povo e, ser finalmente expulso do país pelo exército do Vietnã, em 1979, o Grupo de Emergência de Kampuchea, que tinha como base embaixada norte-americana na Tailândia, organizou-se para apoiar e alimentar os genocidas do Khmer, vistos então como um grupo de “resistência” contra o novo governo cambojano, apoiado pelos vietnamitas. Com a pressão dos EUA, o Programa Mundial de Alimentos providenciou 12 milhões de dólares para alimentar de 20 a 40 mil soldados do Khmer Vermelho. Por pelo menos mais uma década, a inteligência do exército norte-americano forneceu imagens de satélites ao grupo, enquanto forças dos EUA e do Reino Unido treinavam-no para plantar milhões de minas terrestres no oeste do país. Até hoje, elas matam e mutilam centenas de pessoas todos os anos.

6. Chile

Quando Salvador Allende tornou-se presidente, em 1970, o presidente dos EUA, Richard Nixon prometeu “fazer a economia berrar” no Chile. O maior parceiro do país sul-americano eram os EUA, que cortou o comércio bilateral a fim de causar um caos econômico e falta de suprimentos. A CIA e o Departamento de Estado promoveram sofisticadas operações de propaganda durante uma década, financiando políticos conservadores, partidos, sindicatos, grupos estudantis e todos os veículos de mídia, enquanto expandiam seus laços com os militares. Após o general Augusto Pinochet tomar o poder, a CIA manteve os oficiais chilenos em sua folha de pagamentos e trabalhou em conjunto com o serviço de inteligência chileno, enquanto o governo militar matava milhares de pessoas, prendendo e torturando outras dezenas de milhares. Enquanto isso, os “Chicago Boys”, cerca de 100 estudantes chilenos enviados pelo Departamento de Estado dos EUA para estudar na Universidade de Chicago, sob a égide do economista Milton Friedman, lançaram um programa radical de privatizações, desregulamentação econômica e políticas neoliberais que manteve a economia do Chile berrando para grande parte dos chilenos ao longo da ditadura militar de 16 anos de Pinochet.

7. China

Ao final de 1945, 100 mil soldados norte-americanos estavam lutando lado a lado com o Kuomitang chinês nas áreas dominadas por comunistas no nordeste da China. O Kuomitang e seu líder, o general Chiang Kai-Shek, foram possivelmente os aliados mais corruptos dos EUA. Inúmeros conselheiros norte-americanos na China alertaram que a ajuda que os EUA enviava estava sendo roubada por Chiang e seus comparsas, alguns dos itens enviados sendo até vendidos aos japoneses, mas o compromisso norte-americano com o general estendeu-se pela II Guerra Mundial, sua derrota posterior diante dos comunistas e seu governo em Taiwan. A perigosa diplomacia do Secretário de Estado, Allen Dulles, em apoio a Chiang, quase colocou os EUA, por duas vezes, à beira de uma guerra nuclear com a China – em 1955 e 1958 – por conta de duas pequenas ilhas na costa chinesa, Matsu e Qemoy.

8. Colômbia

Quando forças especiais do exército dos EUA e sua agência de combate às drogas auxiliaram o governo colombiano a caçar e matar o chefão das drogas Pablo Escobar, eles trabalharam com um grupo de justiceiros chamado Los Pepes. Em 1997, Diego Murillo-Bejaran e outros líderes dos Los Pepes fundaram a AUC – as Autodefesas Unidas da Colômbia -, que foi responsável por 75% das mortes violentas de civis no país nos dez anos seguintes.

9. Coreia 

Quando as forças dos EUA chegaram na Coreia, em 1945, foram recepcionadas por oficiais da República Popular da Coreia (KPR, sigla em inglês), formado por grupos de resistência que renderam forças japonesas na II Guerra Mundial e começaram a estabelecer lei e ordem por todo o país. O general Hodge expulsou-os então da metade sul do país e colocou a região sob ocupação militar norte-americanas. Em contraste, forças russas no norte reconheceram a autoridade do KPR – o que resultou na divisão da Coreia. Os EUA então trouxeram Sygnman Rhee, um exilado coreano conservador e o instalaram como presidente da Coreia do Sul. Rhee tornou-se tornou um ditador na cruzada anticomunista; prendeu e torturou suspeitos de serem comunistas; liquidou rebeliões com brutalidade; matou 100 mil pessoas e jurou retomar a Coreia do Norte. Ele foi parcialmente responsável pela “explosão” da Guerra da Coreia e pela decisão aliada de invadir a vizinha do norte. Finalmente, foi forçado a renunciar por um protesto em massa de estudantes, em 1960.

10. Cuba

Os EUA apoiaram a ditadura de Fulgencio Batista, cuja opressão matou mais de 20 mil cubanos e fomentou a revolta que causou a Revolução Cubana. O ex-embaixador Earl Smith testemunhou no Congresso “’que a influência dos EUA em Cuba era tão grande, que o embaixador norte-americano era a segunda pessoa mais importante no país; às vezes até mais que o próprio presidente cubano”. Após a revolução, a CIA iniciou uma campanha de terrorismo contra a ilha, treinando cubanos exilados na Florida, América Central e República Dominicana para cometer assassinatos e atos de sabotagem em Cuba. As operações patrocinadas pela CIA incluíram a tentativa de invasão da ilha pela Baía dos Porcos, em 1961, causando a morte de cem cubanos exilados e quatro norte-americanos; diversos atentados contra Fidel Castro e de outros governantes cubanos; ataques aéreos com bombas e atentados terroristas contra turistas, que incluíram um navio francês aportado em Havana (75 mortos), um ataque biológico com a gripe suína que matou meio milhão de porcos e a explosão de um avião (78 mortos) das linhas aéreas cubanas, planejada por Luis Carlos Posada e Orlando Bosch. Ambos continuam livres nos EUA, apesar de os norte-americanos estarem em “guerra contra o terrorismo”. Bosch recebeu o perdão presidencial do primeiro George Bush.

11. El Salvador

A guerra civil que arrasou El Salvador na década de 1980 foi um levante popular contra um governo extremamente brutal. Pelo menos 70 mil pessoas foram mortas e milhares de outras desapareceram. A Comissão da Verdade da ONU organizada após a guerra encontrou evidências que 95% das mortes foram causadas pelo governo e esquadrões da morte e apenas 5% pelas guerrilhas do FLMN. As forças governamentais responsáveis por esse massacre unilateral foram praticamente todas montadas, treinadas, armadas e supervisionadas pela CIA, pelas forças especiais dos EUA e pela infame Escola das Américas. A Comissão da ONU descobriu que as unidades que cometeram as piores atrocidades – como o Batalhão Atlacatl, que conduziu o terrível massacre de El Mozote, eram precisamente as mais próximas da supervisão norte-americana. O papel dos EUA na campanha de terrorismo de Estado é agora louvado por oficiais militares mais velhos como um modelo de “contra-insurgência” na Colômbia e outros lugares onde a guerra ao terror dos EUA leva violência e caos pelo mundo.

12. Filipinas

Desde que os EUA lançaram sua suposta guerra ao terror em 2001, uma força-tarefa de 500 soldados das forças especiais conduziu operações secretas no sul das Filipinas. Com Obama, a ajuda militar dos EUA para o país aumentou de 12 milhões de dólares, em 2001, para 50 milhões, neste ano. No entanto, ativistas de direitos humanos filipinos relatam que o aumento da ajuda coincide com o aumento de operações militares de esquadrões da morte contra civis. Nos últimos três anos, pelo menos 158 pessoas foram mortas por esses esquadrões.

13. França

Ao final da II Guerra Mundial, as forças aliadas descobriram que tanto na França como na Itália, Grécia, Indochina, Indonésia, Coreia e Filipinas, as forças de resistência comunista tinham conquistado o efetivo controle de várias áreas e até mesmo do país inteiro, ao passo que as forças alemãs e japonesas retiravam-se ou se rendiam. Na cidade costeira de Marselha, o sindicato de comércio controlado pelos comunistas controlava as docas, que eram essenciais para o comércio dos EUA e o Plano Marshall. A agência norte-americana OSS (antecessora da CIA) já havia trabalhado durante a guerra com a máfia siciliana na Itália e com os gângsteres de Córsega, na França. Quando a OSS transformou-se na CIA, após a guerra, restabeleceu seus antigos contatos e usou os criminosos corsos para acabar com as greves e controlar as docas de Marselha. A CIA passou a proteger os corsos, enquanto eles montavam seus laboratórios de heroína e, inclusive quando despachavam a heroína para Nova York, onde, por sua vez, os sicilianos mafiosos revendiam a droga com a proteção da CIA. Ironicamente, o suprimento de drogas quase foi zerado devido a Revolução Chinesa e o vício em heroína poderia ter sido eliminado, mas a Conexão França da CIA trouxe permitiu uma nova onda de vício, crime organizado e violência relacionada ao tráfico para Nova York e outras cidades do país.

14. Gana

Atualmente parece não haver líderes nacionais inspiradores na África. Mas isso pode ser culpa dos EUA. Nas décadas de 1950 e 1960, existia uma estrela em ascensão em Gana: Kwame Nkrumah. Ele foi primeiro-ministro sobre controle britânico, entre 1952 e 1960. Quando Gana tornou-se independente, assumiu a presidência. Era um socialista, pan-africanista e anti-imperialista; em 1965, escreveu um livro chamado Neo-Colonialismo: O último estágio do imperialismo. Nkrumah foi destituído em golpe da CIA, em 1966. A agência negou na época seu envolvimento, mas a imprensa britânica revelou posteriormente, que 40 oficiais da agência operavam na embaixada dos EUA “distribuindo favores entre os adversários secretos de Nkrumah” – os quais “foram completamente recompensados”. O ex-agente da CIA, John Stockwell, revela bastante sobre o golpe em seu livro Em Busca de Inimigos

15. Grécia

Quando as forças britânicas desembarcaram na Grécia em outubro de 1944, eles descobriram que o país estava sobre controle efetivo do ELAS-EAM, a guerrilha esquerdista formada pelo Partido Comunista Grego em 1941, após a invasão alemã e italiana no país. O ELAS-EAM recebeu de braços abertos os britânicos, mas estes recusaram-se a qualquer entendimento com os comunistas e instalaram um governo que incluía defensores da realeza e colaboradores nazistas. Quando o ELAS-EAM organizou uma manifestação maciça em Atenas, a polícia abriu fogo e matou 28 pessoas. Os britânicos recrutaram membros nazistas versados em combate para caçar e prender membros dos ELAS, que novamente pegaram em armas para lutar como resistência. Em 1947, com uma guerra civil em andamento, a Grã-Bretanha, falida, recorreu aos EUA para ocupar e controlar a Grécia. O papel dos norte-americanos apoiando o incompetente governo fascista grego estava embasado na Doutrina Truman, encarada por muitos historiadores como o início da Guerra Fria. Os membros da ELAS-EAM deixaram suas armas em 1949, após a Iugoslávia retirar seu apoio a eles. Cerca de 100 mil foram executados, exilados ou aprisionados. O primeiro-ministro liberal Georgios Papandreou foi deposto com um golpe orquestrado pela CIA, em 1967, levando a mais sete anos de ditadura militar. Seu filho Andreas foi eleito o primeiro presidente “socialista”, em 1981, mas muitos membros do ELAS-EAM presos na década de 1940, nunca foram libertados e morreram na prisão.

16. Guatemala

Após sua primeira experiência para derrubar um governo estrangeiro com o Irã, em 1953, a CIA lançou uma operação mais elaborada para remover o governo eleito do liberal Jacobo Arbenz, na Guatemala, em 1954. A CIA recrutou e treinou um pequeno exército de mercenários em conluio com o guatemalteco exilado, Castillo Armas, para invadir o país, contando com o apoio aéreo de 30 aviões não-identificados. O embaixador norte-americano, John Peurifoy, preparou uma lista de guatemaltecos a serem executados e Armas foi instalado como presidente. O reino de terror que se seguiu iniciou os 40 anos de guerra civil no país, que resultou na morte de 200 mil pessoas – indígenas, em sua maioria. O clímax da guerra foi a campanha de genocídio desencadeada na comunidade Ixil, pelo então presidente Rios Montt. Ele foi sentenciado a prisão perpétua em 2013, até que a Suprema Corte da Guatemala anulou o julgamento, a pretexto de uma tecnicalidade. Um novo julgamento está marcado para 2015. Documentos da CIA revelam que o governo Reagan estava totalmente informado da natureza genocida indiscriminada das operações militares dos guatemaltecos quando aprovou uma nova ajuda financeira em 1981, que incluía veículos militares, partes sobressalentes de helicópteros e enviou de conselheiros militares norte-americanos. Os documentos da CIA detalham o massacre e a destruição de vilas inteiras e concluem: “A bem-documentada crença do exército, segundo a qual a população inteira dos índios Ixil é pró-EGP (Exército Guerrilheiro dos Pobres) criou uma situação na qual, espera-se, que o exército não poupe combatentes e nem não-combatentes”.

17. Haiti

Quase 200 anos depois da rebelião dos escravos que criou o Haiti e derrotou os exércitos de Napoleão, a sofrida população do país finalmente elegeu um verdadeiro governo democrático, liderado pelo padre Jean-Bertrand Aristide, em 1991. Mas o governo de Aristide foi derrubado por um golpe militar apoiado pelos EUA, apenas oito meses depois de ter assumido o cargo. Além disso, a agência de inteligência do Pentágono recrutou uma força paramilitar chamada FRAPH com o objetivo de destruir o movimento de Aristide, chamado Lavalas. A CIA colocou o líder do FRAPH, Emmanuel “Toto” Constant, em sua folha de pagamentos e lhe enviou armas pela Florida. Quando o presidente Clinton enviou uma força de ocupação para recolocar Aristide no poder, em 1994, os membros da FRAPH detidos pelos militares norte-americanos foram liberados com ordens de Washington e a CIA manteve a FRAPH como um grupo criminoso para sabotar tanto Aristide, como o Lavalas. Após Aristide ser eleito novamente em 2000, uma força de pelo menos duzentos soldados das forças especiais dos EUA, treinou cerca de seiscentos antigos membros do FRAPH – dentro da República Dominicana para se preparar para um segundo golpe de Estado. Em 2004, eles lançaram uma campanha de violência para desestabilizar o Haiti, crianao novo pretexto para forças dos EUA desembarcarem no país e removerem Aristide do cargo. Pela segudna vez.

18. Honduras

O golpe de 2009 em Honduras iniciou uma era de dura repressão e o assassinato, por esquadrões da morte de oponentes políticos, sindicalistas e jornalistas. Na época, oficiais norte-americanos negaram qualquer participação com o golpe e usaram de semântica para evitar o corte da assistência militar – driblando o que é requerido pelas leis dos EUA. Mas dois vazamentos do Wikileaks revelaram que a embaixada dos EUA era a maior patrocinadora nas gestões, pós-golpe, para a formação de um governo que reprimiu seu próprio povo.

19. Indonésia

Em 1965, o general Suharto tomou o poder do presidente Sukarno sob o pretexto de combater um golpe fracassado. Iniciou, na sequência, uma ondaa de assassinatos em massa, que resultaram na morte de pelo menos meio milhão de pessoas. Diplomatas norte-americanos admitiram posteriormente que proveram listas com os nomes de 5 mil membros do Partido Comunista que seriam mortos. O oficial político Robert Martens disse: “Realmente foi uma grande ajuda para o exército. Eles provavelmente mataram muitas pessoas e eu provavelmente tenho muito sangue em minhas mãos, mas isso não é tão ruim. Há momentos em que você tem agir com força, em um momento decisivo.

20. Irã

O Irã talvez seja o caso mais instrutivo sobre golpes da CIA que causaram uma interminável lista de problemas para os EUA. Em 1953, a CIA e o MI-6 britânico derrubaram o popular governo eleito de Mohammed Mossadegh. O Irã havia nacionalizado sua indústria petrolífera por votação unânime no Parlamento, encerrando o monopólio da British Petroleum (BP), que pagava ao país apenas 16% dos royaties na venda de seu próprio combustível. Por dois anos, o Irã resistiu ao bloqueio naval britânico e sanções econômicas internacionais. Quando o presidente Eisenhower entrou na Casa Branca em 1953, a CIA concordou com um pedido britânico de intervenção. Depois que o primeiro golpe falhou e o Xá Reza Pahlevi voou para a Itália, a CIA pagou milhões de dólares em suborno para oficiais militares e gangsters, que aterrorizaram as ruas de Teerã com violência. Até que Mossadegh finalmente foi removido e o Xá retornou ao poder como um brutal fantoche ocidental, até a Revolução Iraniana, em 1979.

21. Iraque 

Em 1958, após o general Abdul Qasim derrubar a monarquia apoiada pela Grã-Bretanha, a CIA contratou um jovem de 22 anos, chamado Saddam Hussein, para assassiná-lo. Hussein e sua gangue falharam feio na missão e ele fugiu para o Líbano, ferido na perna por um de seus companheiros. A CIA alugou-lhe um apartamento em Beirute. Depois, deslocou-o para Cairo, onde era pago como um agente da inteligência egípcia e era, também, um frequente visitante da embaixada norte-americana. A CIA finalmente assassinou Qasim em um golpe pelo Partido Baath – e, como na Guatemala e Indonésia, entregou ao novo regime uma lista de pelo menos 4 mil membros do Partido Comunista a serem assassinados. No entanto, uma vez no poder, o Baath não se dispôs a ser um fantoche ocidental. Nacionalizou a indústria petrolífera no país, adotou uma política externa nacionalista e criou o melhor sistema educacional e de saúde no mundo árabe. Em 1979, Saddam Hussein tornou-se presidente, após expurgar oponentes políticos. Lançou-se em uma desastrosa guerra contra o vizinho Irã. A inteligência do Pentágono abasteceu Saddam, nesta guerra, com imagens de satélite necessárias para utilizar armas químicas, que o Ocidente ajudou a produzir. Donald Rumsfeld e outros assessores do governo norte-americano enxergavam Hussein como um aliado contra o Irã. Apenas quando o Iraque invadiu o Kuwait e Saddam Hussein tornou-se mais útil como um inimigo, os EUA retularam-no como “um novo Hitler”. Depois que os EUA invadiram o Iraque em 2003, baseando-se em mentiras, a CIA recrutou 27 brigadas da “polícia especial” – unindo a mais brutal das forças de segurança de Hussein com as milícias Badr, treinadas pelo Irã – para criar esquadrões da morte que mataram dezenas de milhares de homens e meninos, de maioria sunitas, em Bagdá e outras cidades, em um reinado de terror que continua até hoje.

22. Israel

Assim como usam seus poderes econômicos e militares, seu sofisticado programa de propaganda e sua posição como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU para violar as leis internacionais com impunidade, os EUA empregam as mesmas ferramentas para criar um escudo protetor a seu aliado israelense, evitando que este tenha que responder por seus crimes. Desde 1966, os EUA usaram 83 vezes seu poder de veto, como membro permanente no Conselho de Segurança – mais do que todos os outros quatro membros combinados. Em 42 casos, estes vetos foram sobre resoluções acerca Israel e/ou Palestina. No início desse ano, a Anistia Internacional publicou um relatório dizendo que “forças israelenses demonstraram uma enorme indiferença com a vida humana, ao matar dezenas de civis palestinos, incluindo crianças, na Faixa de Gaza ocupada nos últimos três anos, com total impunidade”. Richard Falk, o relator especial da ONU sobre Direitos Humanos em Territórios Ocupados, condenou o ataque de 2008 em Gaza como uma “violação maciça da lei internacional”, salientando que países como os EUA, que “forneceram armas e apoiaram o cerco, eram cúmplices nesses crimes”. A Lei Leahy exige que os EUA cortem assistência militar a forças de segurança que violem os direitos humanos, mas ela nunca foi aplicada a Israel – que continua a construir colônias em territórios ocupados, violando o quarto artigo da Convenção de Genebra, tornando ainda mais difícil o cumprimento das resoluções da ONU que exigem a retirada completa dos territórios ocupados. Mesmo assim, Israel continua acima de lei – protegida de prestar de contas pelo seu poderoso aliado, os EUA.

23. Iugoslávia

O bombardeio aéreo da OTAN na Iugoslávia em 1999 foi um flagrante crime de agressão que violou o Artigo 2.4 da Carta da ONU. Quando o secretário de relações exteriores britânico, Robin Cook, disse à secretária de Estado dos EUA, Caroline Albright, que o Reino Unido estava tendo “dificuldades com seus advogados” a respeito do ataque planejado, ela disse, de acordo com seu assistente James Rubin, que os britânicos deveriam “arrumar novos advogados”. O grupo “terceirizado” pela OTAN para agir em campo contra a Iugoslávia era o Exército de Libertação de Kosovo (KLA), liderado por Hashuim Thaci. Um relatório de 2010 do Conselho da Europa e um livro de Carla Del Ponte, antiga procuradora da Tribunal Internacional de Justiça para a Iugoslávia, alertaram, por muito tempo, que na época da invasão da OTAN, Thaci comandava uma organização criminosa chamado Drenica, que enviou mais de 400 sérvios capturados à Albânia para serem mortos e assim terem seus órgãos retirados e vendidos para transplante. Hashim Thaci é hoje o primeiro-ministro de Kosovo, o protetorado da OTAN.

24. Laos

A CIA começou a fornecer apoio aéreo às forças francesas no Laos, em 1950, e continuou envolvida no país por mais 25 anos. A agência orquestrou pelo menos três golpes de Estado entre 1958 e 1960, com o intuito de manter a crescente esquerda, liderada por Pathet Lao, fora do poder. A CIA também trabalhou com os chefões do tráfico de drogas de direita no Laos, como o general Phoumi Nosavan – transportando ópio entre o Myanmar, Laos e Vietnã – além de proteger seu monopólio no comércio de ópio no Laos. Em 1962, a CIA recrutou um exército clandestino de mercenários que contava com 30 mil soldados veteranos de guerras de guerrilha da Tailândia, Coreia, Vietnã e das Filipinas, para lutar contra Pathet Lao. Como inúmeros soldados norte-americanos se viciaram em heroína, durante a guerra do Vietnã, a Air America, da CIA, transportou ópio do território Hmong, nas montanhas, para os laboratórios de heroína do general Vang Pao, em Long Tieng e Vientiane, para serem embarcadas para o Vietnã. Quando o golpe da CIA contra Pathet Lao falhou, os EUA bombardearam o Laos, tão brutalmente quanto no Camboja, lançando 2 milhões de toneladas de bomba.

25. Líbia

A ação da OTAN na Líbia construiu a maneira “disfarçada, silenciosa e livre de imprensa” adotada pelo presidente Obama para fazer guerra. A campanha de bombardeio da OTAN foi falsamente vendida ao Conselho de Segurança da ONU como um esforço para proteger civis e o papel dos militares ocidentais e outras forças estrangeiras foi bem disfarçado, mesmo quando as forças especiais do Qatar (incluindo mercenários paquistaneses ex-agentes do ISI) lideraram o ataque final ao quartel-general Bab Al-Azizia, em Trípoli. A OTAN conduziu 7.700 ataques aéreos. Entre 30 e 100 mil pessoas foram mortas. Cidades leais ao governo foram bombardeadas até virar destroços. Hoje, quano o país está em caos, milícias armadas e treinadas pelo Ocidente dominam territórios e instalações de petróleo, por meio da força. Uma delas, a Misrata, é um das mais violentas e poderosas. Há poucos dias, manifestantes entraram atirando no Congresso pela quarta ou quinta vez, em poucos meses e dois representantes eleitos foram mortos enquanto fugiam.

26. México

A contagem de mortos nas guerras às drogas no México chegou recentemente a 100 mil vítimas. O mais violento dos cartéis de drogas é conhecido por “Los Zetas”. Oficiais dos EUA dizem que eles são os “mais tecnológicos, avançados e perigosos dos cartéis operando no México”. O cartel dos Zetas foi formado por forças de segurança mexicanas, que por sua vez, foram treinados por forças especiais norte-americanas, na Escola das Américas, em Fort Benning – Geórgia; e em Fort Bragg, Carolina do Norte.

27. Myanmar

Após a Revolução Chinesa, os generais do Kuomitang deslocaram-se para o norte de Myanmar e se tornaram poderosos barões das drogas, contando com a proteção militar da Tailândia, financiados por Taiwan e tendo o suporte logístico e transporte aéreo da CIA. A produção de ópio em Myanmar cresceu de 18 toneladas em 1958, para 600 toneladas em 1970. A CIA manteve essas forças como um bastião na luta contra a China comunista. Ajudou a converter o “Triângulo de Ouro” no maior produtor mundial de ópio. A maioria dessa produção foi transportada por mulas para a Tailândia, onde outros aliados da CIA, embarcavam-na para laboratórios de heroína em Hong Kong e Malásia. O comércio mudou um pouco o foco quando o parceiro da CIA, general Vang Pao, montou novos laboratórios no Laos, para fornecer heroína aos soldados norte-americanos.

28. Nicarágua

A Nicarágua foi governada por Anastasio Somoza por 43 anos como se fosse seu feudo particular. O ditador contou com o apoio incondicional dos EUA, enquanto sua Guarda Nacional cometia todo o tipo de crime imaginável – de assassinatos à tortura, de extorsão a estupro – sempre com completa impunidade. Após Somoza finalmente ser deposto pela Revolução Sandinista, em 1979, a CIA recrutou, treinou e apoiou os mercenários “contras”, que invadiram o país com o objetivo de promover terrorismo e desestabilizar a Nicarágua. Em 1986, a Corte Internacional de Justiça considerou os EUA culpados de agressão contra Nicarágua, por enviarem os “contras” e sabotarem os portos nicaraguenses. A Corte ordenou que os EUA terminassem suas agressões e pagassem reparações de guerra à Nicarágua, mas isso nunca aconteceu. A resposta norte-americana foi dizer que não considerava mais a jurisdição da Corte Internacional – efetivamente colocando-se acima das leis internacionais.

29. Paquistão; 30.Arábia Saudita; 31. Turquia

Após ler o meu último texto no Alternet sobre o fracasso na guerra ao terror, um ex-especialista em terrorismo da CIA e Departamento de Estado, Larry Johnson, disse que “o principal problema sobre enfrentar a ameaça terrorista é definir precisamente o patrocínio do Estado. Os maiores culpados hoje, em contraste ao que ocorria vinte anos atrás, são o Paquistão, a Arábia Saudita e a Turquia. O Irã, apesar das bravatas dos neoconservadores de direita, não está ativamente encorajando e/ou facilitando o terrorismo”. Nos últimos doze anos, a ajuda militar dos EUA ao Paquistão totalizou 18,6 bilhões de dólares. Os EUA acabaram de negociar a maior venda de armas na história com a Arábia Saudita e a Turquia é um velho membro da OTAN. Os três maiores países patrocinadores do terrorismo são todos aliados dos EUA.

32. Panamá

Integrantes da agência antidrogas DEA, nos EUA, queriam prender Manuel Noriega em 1971, quando ele era o chefe da inteligência militar no Panamá. Tinham evidências suficientes para condená-lo por tráfico de drogas, mas ele era ao mesmo tempo, um velho agente e informante da CIA – assim como tantos outros traficantes também foram, de Marselha a Macau. Por isso, era intocável. Foi temporariamente desligado de suas funções durante o governo Carter mas, mesmo assim, continuava a receber seu pagamento anual de 100 mil dólares do Tesouro norte-americano. Quando subiu ao status de governante de fato do país, Noriega tornou-se ainda mais valioso para a CIA – relatando seus encontros com Fidel Castro em Cuba e Daniel Ortega na Nicarágua, além de apoiar as operações secretas dos EUA dentro da América Central. Noriega provavelmente parou de traficar drogas em 1985, muito antes de os EUA o acusarem publicamente em 1988. O indiciamento em 1989 foi apenas uma desculpa para os EUA invadirem o Panamá, cujo maior propósito era ter um controle ainda maior sobre o país a um custo de 2 mil vidas.

33. Síria

Quando o presidente Obama aprovou em 2011, o envio de armas e de homens da milícia na Líbia para a base do “Exército Livre da Síria”, na Turquia – em voos da OTAN não registrados –, calculou que os EUA e seus aliados poderiam replicar o “sucesso” que foi a mudança de regime na Líbia. Todos os envolvidos no caso compreenderam que, na Síria, o conflito seria longo e sangrento, mas apostaram que, ao final, o resultado seria o mesmo, mesmo com 55% de sírios apoiando publicamente o presidente Assad. Poucos meses depois, os líderes ocidentais sabotaram o plano de paz de Kofi Annan, e usaram o “plano B”, Amigos da Síria. Esse não era um plano alternativo de paz, mas um comprometimento com a escalada da violência, oferecendo apoio garantido, dinheiro e armas para os jihadistas na Síria, garantindo assim que eles ignorassem o plano de Kofi Annan e continuassem lutando. Essa ação selou o destino de milhões de pessoas. Nos últimos dois anos, o Qatar gastou 3 bilhões de dólares enviando armas para a Síria; a Arábia Saudita embarcou armas via Croácia e países ocidentais junto de forças especiais de países árabes, treinaram milhares de jihadistas radicais e fundamentalistas, que hoje são aliados à Al-Qaeda. As conversações na conferência conhecida como “Genebra 2” foram uma meia tentativa de retomar o plano de paz de Kofi Annan, mas a insistência ocidental de que a “transição política” deve envolver a renúncia de Assad revela que os líderes ocidentais valorizam mais a mudança de regime do que a paz. Parafraseando, Phillys Bennis, os EUA e seus aliados ainda estão dispostos a lutar até o último sírio.

34. Uruguai

Muitos dos oficiais estrangeiros com quem os EUA trabalharam em conjunto tiraram proveito pessoal de sua cooperação com os crimes norte-americanos ao redor do mundo. Mas no Uruguai da década de 1970, quando o chefe de polícia, Alejandro Otero, alertou seus superiores de que os norte-americanos estavam treinando uruguaios na arte da tortura, foi rebaixado em hierarquia. O norte-americano de quem ele reclamou era Dan Mitrione, que trabalho para o Escritório de Segurança Pública dos EUA – uma divisão da USAID. As sessões de treinamento de Mitrione incluíam torturar pessoas sem-teto até a morte com choques elétricos, para ensinar os “estudantes” até que limite podiam chegar.

35. Zaire (República Democrática do Congo)

Patrice Lumumba, o presidente do Movimento Nacional Pan-Africano Congolês, tomou parte na pela independência de seu país e se tornou o primeiro governante eleito do Congo, em 1960. Foi deposto por um golpe patrocinado pela CIA e liderado por Joseph-Desire Mobutu, o líder do exército. Mobutu entregou Lumumba para separatistas e mercenários apoiados pela Bélgica, contra quem ele tanto lutara na província de Katanga. Foi executado por um pelotão de fuzilamento. Mobutu aboliu as eleições e se autoproclamou presidente em 1965 – continuando no poder como ditador por mais trinta anos. Matou oponentes políticos em enforcamentos públicos, mandou outros para a tortura até a morte e, ao final, embolsou 5 bilhões de dólares, enquanto o Zaire, nome cunhado por ele, permanecia um dos países mais miseráveis do planeta. Mas o apoio norte-americano a Mobutu continuou. Até mesmo quando presidente Carter distanciou-se dele publicamente, o ditador continuou a receber 50% de toda a assistência militar que os EUA para a África Subsaariana. Quando o Congresso votou para cortar tal ajuda, Carter e os empresários interessados lutaram para restaurá-la. Apenas na década de 1990, os EUA passaram a abandonar seu antigo fantoche e Mobutu foi deposto por outro golpe em 1997, liderado por Laurent Kabila.

Uma enorme sofrimento humano poderia ter sido evitado, e problemas globais resolvidos, se os EUA estivessem genuinamente comprometidos com a defesa dos direitos humanos e o cumprimento da lei – diferente do que fazem, aplicando, de maneira cínica e oportunista, tais princípios a seus inimigos e, nunca, a seus aliados e a si próprios.


Nota: Nicolas J. S. Davies é o autor de "Blood On Our Hands: The American Invasion and Destruction of Iraq" (tradução livre: "Sangue em nossas mãos: a invasão e destruição norte-americana do Iraque"). Ele escreveu o capítulo "Grading the 44th president: A Report Card on Barack Obama's First Term as a Progressive Leader" ("Classificando o 44º presidente: um relatório sobre o primeiro mandato de Obama como um líder progressista") no livro "Obama at War" ("Obama em guerra").

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Bradley Manning: a verdade sobre a guerra

“Nessa semana o vimos de novo na televisão, durante seu julgamento. Acusado de 21 crimes diferentes ele foi condenado a 136 anos de prisão. Seus crimes se resumem num só: ele revelou a verdade sobre a guerra. Ele tirou o véu da mentira, colocou à nu a podridão, o terrorismo, o assassinato frio de homens, mulheres e crianças, gente civil.”


Sempre fui renitente com os estadunidenses. Aquela coisa do preconceito que a gente vai madurando dentro da gente e que, por vezes, torna-se cristalizado e burro. Então comecei a ler os livros de Gore Vidal e vi que por lá havia vida inteligente. Mais tarde conheci Howard Zinn e, obviamente, constatei que a história desse povo também é cheia de beleza e de gente comprometida com a vida, com a verdade, com o bem de todos. Não dá para confundir o governo e a elite podre com as pessoas de bem, que assomam em milhares.

Uma dessas tem me causado tristeza e ternura nos últimos dias. O bravo soldado Bradley Manning. Sua carinha de menino, ainda cheia de espinhas, caminhando entre os guardas, com o semblante imutável, definitivamente certo de que fez o que tinha de fazer. Esse garoto era um analista de inteligência lotado no batalhão de suporte da 2ª Brigada da 10ª Divisão da Estação de Operação de Contingência, durante a Guerra dos EUA contra o Iraque. Mais um desses meninos que são obrigados a servir num país distante, travando uma guerra que não é deles, em nome de interesses escusos.

E tal como outros tantos soldados metidos nessas guerras estúpidas, Bradley viu coisas que não pode suportar. Todas essas denúncias que são feitas de terror, assassinatos, estupros, violências, torturas. Tudo isso passou por ele nos dados que manipulava no computador. Premido pela consciência ele decidiu divulgar os horrores que eram praticados pelos soldados no Iraque. Seu desejo era singelo: coibir os abusos. Como qualquer estadunidense comum ele acredita em quase todas as histórias de “mundo livre”, “democracia perfeita” e todas essas ideologias que o governo martela todos os dias através dos meios de comunicação e outras correias de transmissão. Ele sente orgulho em pertencer à armada de seu país. Por isso era confuso ver o que via. Aquelas imagens que observava no computador não fechavam com o ideal de mundo perfeito que tinha na cabeça. 

E foi por conta desse soldado que o mundo pode ver imagens duras como a da morte de uma dezena de civis, promovida sem qualquer pudor desde um helicóptero. E outras tantas atrocidades que apareceram no sítio da Wikileaks. Pois tudo o que Bradley queria é que esse terror tivesse fim. Na sua ingenuidade, talvez, ele acreditou que o desvelamento da verdade sobre o que acontecia no Iraque pudesse parar a máquina da morte. 

Pois o jovem soldado não sobreviveu à traição. Um informante que investigava o caso dos vazamentos de informação conseguiu descobrir que era Bradley a pessoa que havia desviado os documentos e o entregou às autoridades estadunidenses. Ao contrário de Julian Assange ou Edward Snowden, Bradley não teve para onde fugir. Foi preso e ficou confinado em condições de detenção desumanas. Foi apresentado à nação como um traidor. Virou o inimigo número um dos EUA. O “mundo livre” não podia deixar barato o fato de ter tido sua máscara arrancada por um quase guri. Assim, durante sua prisão, desde 2010, Bradley provou daquilo que via seus companheiros fazerem com os “inimigos”. Foi submetido a tratamento desumano. Segundo seu advogado, David, Coombs, Bradley permanecia trancado, sozinho, na cela, sem que tivesse roupas de cama, ou qualquer outro objeto pessoal. Até seus óculos foram retirados. Tudo o que podia fazer era caminhar em círculos dentro da cela vazia. Durante a noite, era obrigado a tirar toda a roupa e entregar aos guardas. Dormia apenas com a cueca. Uma suprema humilhação que visava destruir sua autoestima e seu desejo de viver.

Nessa semana o vimos de novo na televisão, durante seu julgamento. Acusado de 21 crimes diferentes ele foi condenado a 136 anos de prisão. Seus crimes se resumem num só: ele revelou a verdade sobre a guerra. Ele tirou o véu da mentira, colocou à nu a podridão, o terrorismo, o assassinato frio de homens, mulheres e crianças, gente civil. 

E ali estava ele, agora com 25 anos, sereno, ao ouvir a sentença. Talvez, dentro do coração, ainda esteja cheio de perplexidade, porque tudo o que queria era provocar o debate sobre o horror de uma guerra e os excessos cometidos por seus companheiros. Bradley, ao contrário do que dizem seus acusadores, queria salvar o seu “mundo livre”, limpá-lo das manchas. Um garoto ingênuo e sonhador. Cometeu o terrível erro de tentar salvar seu país. Deveria ser carregado nos braços como um herói pelo seu povo. Deveria ser reverenciado por outros tantos jovens que, como ele, partem para os confins da terra lutando em guerras que nem entendem. 

Bradley Manning nos deu as provas da verdade tão denunciada. Agora vai pagar por isso, na solidão, certamente submetido a toda sorte de humilhações. 

Por conta disso se articulam em todo mundo comitês de apoio ao soldado que pedem a sua libertação. É que as pessoas que lutam por um mundo justo sabem que esse é um dever. Bradley arriscou tudo para nos dar a verdade. Agora é hora de retribuir esse doloroso presente.

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